• Mosteiro da Santa Face

Beato Basílio

BEATO BASÍLIO (VASYL VELYCHOVSKYJ) (1903 — 1973)

Bispo Redentorista da Igreja Greco-Católica “clandestina” da Ucrânia


Um pouco depois da metade do século passado chegou para nossa Igreja o tempo da semeadura: do sangue dos mártires, da opressão, das lágrimas e do pranto dos ucranianos perseverantes na fé e na fidelidade ao Estado ucraniano independente. A semente plantada desabrochou, e agora — de- pois de termos apenas passado as portas do terceiro milênio — temos a possibilidade de colher seus frutos, embora de sabor não excelente, mas na esperança de uma boa colheita do Pão da Vida no futuro. Entre estas milhares de espigas há também a semente plantada pelo filho da fé da Ucrânia, o Beato bispo Vasyl (Basílio) Velyckovskyj, C.Ss.R.

Jovem combatente pela pátria Vasyl (Basílio) Vsevolod Velychovskyj nasceu no dia 01 de junho de 1903, em Stanislaviv (hoje Ivano-Frankivs’k), numa antiga família sacerdotal dos Velychovskyj e Teodorovych. Seus pais, Volodymyr e Anna, fizeram seus fi- lhos crescerem como cristãos zelosos e prontos ao sacrifício.

Daí brotou também em Basílio o desejo de oferecer toda sua vida pela salvação das almas. Tempos difíceis aqueles de 1918... Basílio, naquela época um estudante ginasial com apenas 15 anos, pega em armas e vai combater pela independência da pátria. Deixa tudo e parte por caminhos cheios de riscos, sem saber se a sorte lhe permitiria o retorno à casa dos pais. Chegou até nós uma obra sua deste tempo que mostra maravilhosamente seu difícil caminho nesta idade juvenil, que não fez sozinho. “Bendita sejais, ó Mãe” é o título de seu livro dedicado a esta época de tensão, onde descreve também os sentimentos genuínos de seu jovem coração: “Que ímpeto, que maravilha só de imaginar o rumor produzido pelas potentes asas de uma ave! Por que os corações batem em tanta concórdia? Está em curso uma luta para defender o futuro de seu povo, a liberdade, a honra e a glória. E ele decidiu-se pelo combate, como tantos outros jovens... como as crianças... precocemente. Foi... e com ele a oração e a bênção da Mãe... e com ele alguma força, potente e misteriosa... No tempo livre, na escuridão da noite, quando a caminho, suas mãos tocam afetuosamente alguma coisa, os lábios murmuravam alguma coisa... O quê? O santo rosário que a mãe lhe dera quando partia, a fim de que se lembrasse que era filho de Maria...” É tempo de guerra (1918-1919). Como sempre acontece nestas circunstâncias, as pessoas dos campos adversários procuram matar-se mutuamente. A autobiografia do beato, contudo, testemunha bem outra coisa: “Não fui culpado da morte de ninguém, nem mesmo ferir um inimigo, e também eu fiquei livre de qualquer ferimento, incólume em meio ao mar de balas e perigos. Para mim agora tudo é claro... O rosário de minha mãe, sua bênção e sua oração estavam sempre comigo (Autobiografia do Beato, in p. S. J. Kakhatalovs’kyj, C.Ss.R., Vasyl Velyckovskyj. Um Bispo Confessor. Memórias de minha vida, Yorkton, (Sask.), Canadá 1975, pp. 72-73). A Providência divina ajudou o jovem Basílio a nunca estar na linha de fogo, mas ser destinado à chancelaria de uma unidade militar do exército ucraniano independente, na qualidade de suboficial.

Sacerdote Voltando da guerra, em 1920, o jovem Basílio entra no seminário teológico de Leopoli. Logo chega o momento da consagração diaconal: a graça da ordem vem sobre ele pela imposição das mãos do metropolita Andrea, de Leopoli. Neste tempo começa a sentir inclinação para a vida religiosa e com a ajuda da tia, monja basiliana, inicia seu noviciado junto aos redentoristas. No final do noviciado o diácono Basílio é indicado como professor do juvenato redentorista. Além deste encargo, ocupa-se de sua autoformação e depois de completar, por si mesmo, o currículo dos estudos requeridos para o ministério sacerdotal, é ordenado padre pelo bispo Josyp Bocjan. Já então o jovem redentorista se destacava por um tal desejo e capacidade de realizar missões entre o povo simples dos povoados e das cidades que seu zelo e índole particular não podiam escapar aos olhos dos superiores. Por isso eles ofereceram-lhe a oportunidade de desenvolver os dotes espirituais, mandando-o a Stanislaviv: aí teve oportunidade de pregar as missões junto com outros redentoristas mais idosos e mais experientes do que ele. Assim é que começou seu trabalho apostólico, que se prolongou além de 20 anos, até quando os bolchevistas vieram, ocuparam nossas terras e liquidaram de modo violento a Igreja Católica.

Missionário fervoroso Em novembro de 1928 o padre Basílio transfere-se para o convento redentorista de Kovel’. Inicia, imediatamente, um intenso trabalho missionário nos povoados vizinhos, procurando visitar e consolidar os ucranianos dispersos pelo imenso território de Volyn’ e Pidljashja e prestando serviço às pessoas recentemente unidas à Igreja Católica, os ortodoxos russos do passado. Além de seu intenso e ardoroso trabalho nas colônias ucranianas, devem ser lembradas também as missões pregadas em diversas partes de Volyn’, Polissja, Rússia Branca. “Quando o padre Basílio pregava missões em Zabrze (Volyn?) para os recém-unidos à Igreja, quase todas as 180 pessoas se confessaram e disseram: Agora sabemos o que é a santa união. Agora fomos confirmados...” Nesta época e nestes lugares surgiram muitas igrejas e capelas construídas pelo padre Basílio com o subsídio do Metropolita Sheptyckyj e de outros benfei- tores.Seu grande espírito de sacrifício, alimentado da grande capacidade de trabalho, não podia ficar sem recompensa. O Beato fundou, em toda parte, inúmeras fraternidades de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, procurando enraizar nos corações dos fiéis simples uma devoção filial para com a santa Mãe de Deus. Graças às suas orações e pregações, que fazia sempre que se lhe oferecesse uma mínima oportunidade, muitos leigos e representantes do clero ortodoxo voltaram para o seio da Igreja Católica. Toda esta atividade, contudo, não podia passar despercebida aos olhos do poder polonês dominante, tomado de ciúmes e de ódio por causa destas frutuosas iniciativas dos redentoristas ucranianos e das prospectivas futuras por eles encetadas. Da mesma forma se portavam o governo dominante nazista e o soviético. Os poloneses, esforçando-se para ver no apostolado do padre Basílio alguma conotação política, insistiam em sua expulsão do território de Volyn’. Assim, em 1935, foi morar no convento redentorista de Stanislaviv. Jun- to com o Beato Zenão (Zinovij), prega as grandes missões em toda a Galizia e nas terras étnicas de Lemkivshchyna (região dos montes Cárpatos). Uma vez, em 1936, achava-se, em missão, num dos povos contaminados pelo espírito radical. Por causa da grande afluência de gente viu-se obrigado a pregar a céu aberto, no adro da igreja paroquial. Neste meio tempo um grupo de jovens, provavelmente de inspiração contrária àquela católica, postava-se fora do recinto eclesial, zombando de tudo o que acontecia e impedindo, com gritos, a pregação do padre. De repente, colhendo de surpresa aqueles jovens, o padre desceu do improvisado ambão de onde pregava, e saiu correndo em direção a eles, que buscavam salvar-se pela fuga. Mas o missionário começou a acelerar os passos e, alcançando o último do grupo, segurou-o pela mão, dizendo-lhe: “Mas você, por que procura fugir do Cristo? Vamos escutar a Palavra de Deus”. Os outros jovens, igualmente espantados pela atitude do sacerdote, voltaram à igreja para escutar seu ensinamento. “Somente depois — narra o padre — é que pensei que eles poderiam ter-me matado naquele campo aberto”. Quando se tratava da salvação eterna dos outros, ele não se importava consigo mesmo. Depois da expulsão do padre Achille Boels, superior do convento redentorista, coube ao Beato sucedê-lo.

Sob o fogo da artilharia do Exército Russo Um ano depois, declarada a segunda guerra mundial, já no dia 17 de setembro o exército russo “vinha libertar seus irmãos, habitantes da Ucrânia Ocidental”. A chegada dos “libertadores” significava a perseguição da Igreja Greco-Católica Ucraniana pelo governo stalinista. Durante a ocupação dos bolchevistas a popularidade do Beato cresceu ainda mais. Quando, porém, quis pregar missão num dos povoados vizinhos, um dos agentes da NKVD o alertou: “Considerando a boa fama que o senhor goza entre o povo da cidade, aqui em Stanislaviv ninguém ousará tocá-lo. Mas, saindo da cidade, o senhor se expõe ao perigo de ser preso pelas autoridades soviéticas. Cuidado!” (p. S.J. Bakhtalovs’kyj, C.Ss.R., Vasyl Vsevolod Velyckovskyj, C.Ss.R. Un vescovo-Confessore. Ricordi della mia vita, p. 11). Em 1940 celebrava-se a festa de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, quando os redentoristas, como de costume, organizaram a procissão solene pelas ruas da cidade. Dela, precedida de uma cruz, participavam cerca de vinte mil pessoas. Jovens, membros da confraria de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, vestidos com roupas festivas, com tiras das cores da bandeira nacional ucraniana (amarelo-azul) nas man- gas dos casacos, levavam as bandeiras eclesiásticas ornamentadas da mesma forma. É claro que o governo comunista não ficou muito satisfeito com o ato. Alguns dias depois o padre Basílio, com dois outros redentoristas de seu convento, foram chamados para “um encontro” particular no edifício central do departamento regional da NKVD. Durante a fase de esclarecimentos, presidida pelo próprio chefe regional dos serviços de segurança estatal, o Beato conservava um silêncio absoluto, não deixando-se perturbar por nada, enquanto recitava, calmo e tranqüilo, a oração do rosário. Respondeu, porém, a todas as perguntas do capitão Nazarov, que respeitava a dignidade humana do padre. Mais tarde, enquanto redigia seu relato autobiográfico, padre Basílio transmitiria estas palavras do capitão: “De minha parte eu o respeito de todo o coração, porque o senhor está pronto a dar a vida por aquilo que julga ser a verdade. Considero indigno quem se comporta diferentemente”. Em 1941 o metropolita Andrea, de Leopolis, respondendo aos pedidos dos fiéis ortodoxos da Ucrânia Central, manda o padre Basílio para Kamjanets Podil’s’kyj. Ele se põe a trabalhar entre eles, de acordo com as orientações do metropolita. Cada povoado ao redor necessitava de um intenso trabalho pastoral, porque todos eles estavam privados da presença de um sacerdote havia tempo. Na prática todo paroquiano queria confessar-se, uma vez que fazia tempo que aí não se atendiam confissões. Havia também uma centena de crianças esperando o Batismo e a Crisma. As igrejas cristãs, antes descuradas, retornavam a seu antigo esplendor, enchiam-se de fiéis sedentos da Palavra de Deus.

Apostolado perigoso Mas o padre Basílio não pôde ficar por muito tempo em Kamjanets Podil’s’kyj, pois sua atividade pró-Ucrânia não era muito agradável ao novo governo dominante. Três dias depois, em nome das autoridades militares, o chefe do departamento alemão o convoca e o acusa de estar em contato com os rebeldes de Bandera (chefe do exército nacionalista e do partido de direita com orientação nacionalista). Dentro de 24 horas devia o padre Basílio deixar a cidade, se não quisesse ser fuzilado. Assim teve que transferir-se para Lviv. Um dia, em 1942, chegou ao convento redentorista de Lviv a notícia: as forças militares soviéticas já estão próximas da cidade de Ternopil. O superior ficou preocupado por- que não havendo aí nenhum dos nossos sacerdotes, quando os russos entrassem na cidade poderiam dizer que os padres se puseram em fuga para se salvarem, desacreditando assim a Igreja Católica. O padre Basílio transferiu-se então para lá. Sóror Benedita (Serva da Imaculada Virgem Maria) assim diz da presença do padre Basílio naqueles terríveis dias: “A vida me fez estar em Ternopil, onde o padre Basílio era superior do convento redentorista junto à Igreja da Dormição da Santa Mãe de Deus. Um homem forte no espírito, confessor experiente e pregador de apre- ciável eloqüência, atraía para si não só com a força da palavra, mas também com lágrimas sinceras que escorriam de seus olhos, enquanto fazia a homilia. Visitava freqüentemente os doentes no hospital da cidade, onde também eu trabalhava e celebrava-lhes a Liturgia na capela interna do hospital. Não deixava nem mesmo a obrigação de visitar a casa dos idosos e os orfanatos sob cuidados das Irmãs Servas da Imaculada. Era o ano de 1942, porque já em 1943 o destino — provavelmente graças ao grande reconhecimento de sua atividade entre os fiéis — o transferiu para Lviv”.


Em 1943 padre Basílio se achava em Lviv. Mas, pouco tempo depois volta a Ternopil. Sóror Benedita lembra: “Chegou o ano de 1944: o Exército Russo tinha invadido violentamente o território da Ucrânia Ocidental... A ardente atmosfera de caos, em meio a explosões de bombas, berros e gritos das primeiras vítimas desta tragédia bélica, invade toda a cidade. Apesar disso, padre Basílio, depois de percorrer um bom pedaço do caminho a pé, alcançou Ternopil, com um intuito estritamente espiritual: a salvação eterna de seus fiéis. Durante toda a noite o barulho da aviação militar, o estrondo das bombas e das balas (durante uma hora e meia) ... Era nestas condições que nosso caríssimo padre, arriscando a vida, conseguia chegar até nosso convento para celebrar a Liturgia; e assim sucedia diariamente: celebrava, ouvia confissões, confortava espiritual- mente...” No período da segunda ocupação bolchevista do território da Ucrânia Ocidental, as autoridades militares da segurança nacional prenderam numa noite — do dia 10 ao dia 11 de abril de 1945 — toda a hierarquia da Igreja. A mesma sorte coube a nosso Beato. Disseram-lhe: “O senhor pode esco- lher: ou assinar a passagem para a igreja ortodoxa e imediatamente voltar para casa ou renunciar à passagem e ser preso”. Não houve hesitação ou dúvida alguma. Apenas exclamou: “Não! Jamais!”


Condições desumanas Em abril o padre Basílio foi transferido para Kyjiv, para a fase instrutória. Eis como descreve: “Fui colocado numa cela solitária, tão pequena que não podia nem mesmo sentar-me; a porta impedia-me até mesmo esticar as pernas. No mesmo dia quando vieram os chefes, puseram-me numa outra maior, onde havia uma cama de ferro para uma pessoa e em cima um colchão de palha, que depois de longo uso, apodrecia. À noite fiz força para colocar-me nele. O feno apodrecido cedeu com o peso do meu corpo. Precisei resignar-me a dormir sobre os duros ferros, em vez de uma palha macia. Depois de um mês de sofrimentos transferiram-me novamente. Desta vez para um quarto onde havia três pessoas que dormiam estendidas sobre o chão”.


A fase instrutória continuou por quase dois longos anos. Chegou-se à sentença do tribunal regional de Kyjiv. O veredicto final dizia: “Pena capital através de fuzilamento”. E por quê? Por duas expressões anticomunistas: “Horda vermelha” e “Facção Vermelha” escritas em sua agenda de bolso na época da primeira ocupação bolchevista. Conta sóror Benedita: “Fuzilamento, depois de dois longos anos de torturas horríveis, por terem encontrado com ele um livro com a oração: “Ó Mãe de Deus, protegei-nos do perigo vermelho”.

Esperando por três longos meses a execução da sentença, padre Basílio não deixava de realizar suas obrigações de sacerdote e pastor. Ensinava aos detentos as orações, os dogmas principais da fé católica, preparava-os para os Sacra- mentos: em síntese, abria aos encarcerados as portas do céu.


Condenação comutada Um dia, à noite, chegaram alguns para levá-lo embora da cela. Não para conduzi-lo ao piso inferior, para matá-lo, como era de praxe, mas para a sala do chefe de departamento. Aí deram-lhe a notícia de que a pena capital (fuzilamento) tinha sido substituída por dez anos de prisão.


Naquela época o padre Basílio não sabia o motivo da comutação da pena. Isto aconteceu seguramente graças à sóror Benedita, que testemunha: “Tomada de horrível medo, pedi o favor de nosso médico assistente, senhor Mazur (eu já tinha trabalhado no hospital estatal da cidade e ele era um influente funcionário do Estado, Deputado do Conselho Principal da URSS). Ele aconselhou- me escrever uma carta de súplica ao Tribunal Geral (última instância), implorando piedade para com o condenado, em nome de sua mãe, que deveria também assinar o documento, pedindo que se mudasse ‘a medida da defesa social’: da pena capital para a detenção forçada numa prisão. E, depois de algum tempo, o veredicto final do tribunal precedente foi substituído por dez anos de cárcere”. Em fins do outono de 1945, achando-se em viagem de expulsão, suas pernas se congelaram, não podendo, durante muito tempo, ficar em pé. E, depois, uma antiga dor por vezes lhe dificultava a respiração.

Na região de Kirov os detidos ucranianos eram enviados, sob escolta, para um campo de concentração de início ocupado por alemães. Trabalhavam na floresta, cortando lenha. O padre Basílio esteve neste campo por dois anos, trabalhando no depósito do departamento sanitário.


Em 1947 padre Basílio é transferido para Vorkuta, onde é obrigado a trabalhar nas minas de carvão. Nos campos de Siblag as condições de vida eram tão difíceis para a sobrevivência dos detentos que eles organizavam periodicamente pequenas rebeliões contra a administração do campo, com o objetivo de conseguir pelo menos um mínimo de melhoramento. Estes esforços às vezes não ficavam sem seu “prêmio”. Acontecia que depois de tais rebeliões os soviéticos massa- cravam milhares de encarcerados. Depois de uma destas pequenas “revoluções”, os chefes do campo suspeitaram do padre Basílio como um dos organizadores da revolta. Por isso transferiram-no para uma das mais horríveis prisões da URSS, em Voldymir, sobre o rio Kljaz’ma. Aqui, aconselhado também pelos seus colegas, escreve a Moscou protestando e replicando que o tribunal lhe fora injusto. Não se sabe como, mas seu pedido foi aceito. Assim, retornou aos campos vorkutinos com seus habituais 50 graus abaixo de zero no inverno, com as minas de carvão e com as barracas do campo, onde se precisava dormir vestidos por causa do frio gelado, para não dormir eternamente...


“A vida religiosa no campo era bastante viva, dirá mais tarde o bispo Basílio. Quanto mais insuportáveis os sofrimentos pelos quais devemos passar, tanto mais sentimos a necessidade da alegria do espírito.”


Por Igreja, uma tampa de metal Padre Vasyl, embora em condições mais que “primitivas”, não deixava de lado a celebração litúrgica diária, embora de forma oculta. Por patena e ao mesmo tempo como altar servia- se de uma pequena folha metálica redonda que normalmente se usa para cobrir pequenas latas de metal com produtos em conservas... “Este pedaço de metal era seu cálice, sua patena, seu altar, sua igreja; ... a igreja que ninguém e nada podem destruir porque esta é a força de sua convicção, a graça de Deus”, dirá depois o metropolita Maksym Ghermanjuk.


Padre Basílio era uma pessoa exemplar para os outros encarcerados. Borys Mirus, um deles, assim escreve de nosso Beato: “Na galeria de minhas recordações ocupa o primeiro lugar, o mais honrado, o retrato do pastor de almas, Basílio. Embora envolto no mísero e gasto uniforme do campo, parecia ser uma pessoa extraordinária, de imensa dignidade. A barba mais longa, o passo calmo e atento, os gestos elegantes e a forma gentil de se comunicar com os outros, tudo isto revelava sua majestosa nobreza. Os jovens chamavam-no ‘nosso capelão’. Gozava de indiscutível estima entre todos os ucranianos encarcerados por motivos políticos no campo vorkutino. Foi respeitado não só por eles, porque era uma personalidade capaz de reunir a todos nós prisioneiros sem olhar para a diferença religiosa ou política, capaz de reunir num esforço de purificação contra o pó do horrível dia a dia que procurava nos dominar pela via da injusta concorrência, de intolerante divergência de opiniões, de imunda rotina da vida no campo. Foi um verdadeiro espiritual, no significado mais profundo da palavra. Padre Basílio, enquanto me lembro, estava sempre recolhido na oração do rosário. Orava por nós, privados de nossa liberdade, orava também por aqueles que nos vigiavam e torturavam os detentos. Parecia querer trazer o céu a todos. Amava com amor cristão nossos impiedosos guardiães! Era incrível, mas era verdade. E esta verdade se aninhou em meu coração para sempre. Ela brilhava, reluzia e difundia raios de luz nas trevas da absurda inimizade de uns para com outros, que reinava nos campos stalinistas. Padre Basílio trabalhava na mina como porteiro, e seu, por assim dizer ‘escritório’, foi o lugar habitual para nossos encontros, porque eu por algum tempo o substituí. Função do porteiro era controlar o acesso de ar fresco nas ‘vísceras’ da mina. Em comparação com outros, um trabalho bastante fácil. Para dizer a verdade, todos os detentos faziam de tudo para colocar o bispo Basílio numa maior comodidade, para facilitar-lhe as condições vitais e livrá-lo da brutalidade do campo. A direção do campo, porém, assumiu uma posição absolutamente contrária, comportando-se perante ele de forma muito severa; antes o calúnia ou muitíssimo. Os oficiais da KGB e o chefe do campo consideravam- no ‘extremamente perigoso’. Por isso sempre que se aproximavam as ‘festas’ soviéticas (10. de maio, 7 de novembro), nosso ‘governo’ local recolhia o padre Basílio numa ‘barraca de regime especial’. Ele, porém, mantinha-se imperturbável. Todo ano, na quaresma, e também durante outras festas religiosas, padre Basílio confessava, às ocultas, os prisioneiros. Tive a graça de confessar-me com ele. E isto deixou um traço indelével no profundo de meu coração...”


Os últimos meses de 1955, antes de terminar o tempo de sua detenção, graças ao apoio de seus irmãos e alojados, o Beato trabalhou como encarregado na repartição médica sanitária do campo. Um trabalho mais pesado teria ultrapassado suas forças, pois os dez anos de vida no campo tinham destruído completamente sua saúde.


Retorno a Lviv Chegou 1955. “Bem depressa, surpreendentemente depressa, passaram os dez anos de minha condenação... por causa de minha renúncia a trair a fé católica”, — escreve o Beato em suas memórias (Autobiografia do Beato, in p. S.J. Bakhtalovs’kyj, C.Ss.R., Vasyl Vsevolod Velychovskyi, C.Ss.R. Un vescovo-confessore. Ricordi della mia vita, p. 122).


Depois de sua volta a Lviv o padre não encontrou, como era de se prever, nenhuma igreja ou capela onde podia celebrar a Eucaristia. Mas a força de ânimo não o abandonara. Em seu apartamento na rua Vozzjednannja, 11, construiu um altar provisório, feito de caixas de papelão vazias, colocando-o debaixo da cama e ocultando-o de olhos curiosos. Poucas pessoas, seis ou sete, vinham até ele para participar da Liturgia.


Não obstante a clandestinidade, padre Basílio nunca teve medo de ser descoberto pelos espiões do serviço secreto que sempre vigiavam sua atividade sacerdotal. Celebrava diariamente, orientava retiros espirituais, guiava espiritualmente muitas pessoas que se dirigiam a ele para aconselhamento, direção espiritual etc... Não temia os riscos, nos quais cairia, se desco- berto. Viajava com freqüência a Stanislaviv, Ternopil, para celebrar a Liturgia, abençoar matrimônios, batizar, ouvir confissões. A senhora Roghulja Anastácia, de quem o Pe. Basílio foi por longo tempo diretor espiritual, diz: “...Conforme minhas observações, sua excelência Basílio tinha o dom de conhecer o coração do penitente. Muitas vezes fazia-nos confessar pecados que tínhamos esquecido... Pregava em toda Liturgia, e dizia que pregaria igualmente, mesmo se não houvesse ninguém na celebração”.


Em 1959 a Santa Sé nomeou o padre Basílio “bispo da Igreja do Silêncio”. Por causa das dificuldades da situação religiosa que ainda perduravam só pôde ser sagrado bispo quatro anos depois, em 1963.


Antes de sua segunda detenção, a polícia de Estado por diversas vezes vistoriou sua moradia e confiscou não apenas as coisas ligadas a seu serviço de ministro da Igreja que, segundo as leis soviéticas podiam ser usadas privadamente, mas também o dinheiro, talheres de cozinha, fotos.


“No dia 2 de janeiro de 1969 novas averiguações, confisco de bens e prisão. Foi assim: Alguns dias antes visitaram-nos três sacerdotes estrangeiros. Nós nos conhecemos, tomamos refeição juntos, confessamo-nos mutuamente. O bispo deixara em sua mesa alguns documentos, livros, dinheiro etc... Por fim, antes de partir, os hóspedes propuseram fazer uma foto de recordação. No dia seguinte — num assalto de improviso — os espiões forneceram todas as provas necessárias.” Nova detenção Dez anos de prisão não tinham “curado” o bispo Basílio. Continuava sendo um cristão católico, “fazendo agitação e propaganda anticomunista no meio do povo, fugindo do trabalho físico e intelectual em favor do estado soviético. Nunca se portou como cidadão exemplar da URSS. Além disso, escreveu e divulgou um livro sobre a Mãe do Perpétuo Socorro onde procurava demonstrar sua tese que um homem sem fé jamais poderia ser um autêntico cidadão fiel a seu Estado; escutava também as transmissões da Rádio Vaticano”. Foi tudo o que se necessitava para sua nova detenção, no dia 2 de janeiro de 1969, na esperança de reconduzi-lo à prisão.


Durante oito meses de fase instrutória, antes da decisão definitiva do tribunal, nosso Beato, agora com 60 anos, não viu a luz do sol e nem respirou ar fresco. No dia 27 de janeiro de 1969 o bispo Basílio foi novamente preso e condenado a três anos de reclusão. A este respeito disse: “Fiquei muito doente...” “O processo sobre Basílio terminou. O uniata convicto foi justamente condenado pela sua atividade criminosa, — escrevia um tal M. Belins’kyj em seu artigo “Judas”. Certamente este senhor não sabia que — dando ao Beato o título de “uniata convicto” — destacava mais uma vez a fidelidade do bispo ucraniano a Deus, sua firmeza na fé cristã, mesmo depois das terríveis vicissitudes pelas quais deveria passar na vida.


O triênio de prisão para o bispo começou no cárcere de tratamento especial em Komunars’k. Depois de alguns meses de estadia, descobriu-se que sofria gravemente do coração. Sua irmã, na época cidadã da Iugoslávia, ficou a par, através de suas cartas. Dirigiu-se muitas vezes ao governo soviético, procurando libertar seu irmão por causa de suas doenças, mas nunca obteve resposta da URSS. Entretanto, graças à chegada de um novo chefe na prisão, o bispo foi recolhido no hospital do cárcere para tratamento necessário. Chegou até nós o documento médico que informava sobre o estado de saúde de Basílio, emitido pelos médicos da prisão, a pedido da senhora Shevchuk Anna di Andrea, no dia 27 de setembro de 1971. Segundo ele o bispo sofria de arteriosclerose em forma metabólica do circuito sangüíneo do cérebro, de cardiosclerose de tipo arteriosclerótico com impedimento de circulação sangüínea de II grau B, de bronquite crônica e de enfisema pulmonar. O diagnóstico do médico é mais do que claro: “Inválido de II categoria”.


E é muito curioso que este bispo, velho e inválido, fosse considerado pelo governo tão perigoso ao estado bolchevista que jamais se deu resposta aos inúmeros pedidos da senhora Shevchuk.


“Ele não gostava muito de contar sobre sua permanência na prisão. Provavelmente foi torturado sem piedade. Isto se explica por- que quando levado ao hospital de Winnipeg, ficasse tomado de tanto medo — quando via os médicos de branco — que o suor cobria-lhe a fronte e o coração batia impetuosamente. Vendo-os, lembrava quanto tinha sofrido no cárcere. Isto deixa muito espaço à imaginação!”


No exterior, para “repouso” No dia 27 de janeiro de 1972 encerrou-se para o bispo Basílio o segundo período de prisão. Desta vez as autoridades não lhe permitiram voltar a Lviv e propuseram-lhe ir para a Iugoslávia “para descansar”. Sóror Benedita escreve: “Quando terminou o tempo, expulsaram-no do país — ‘para visitar a irmã’, cidadã iugoslava. E, acompanhando-o nesta viagem injetaram-lhe alguma substância química, ‘para que não nos prejudique e não os ajude’. (O bispo perdeu praticamente a memória).”


Depois de breve permanência na casa da irmã, em Zagreb, ele apresentou-se ao cardeal Josyp Slipyj, em Roma, e encontrou com muitos compatriotas. O Beato foi acolhido privadamente por Paulo VI. Visitou depois o Canadá, a pedido do metropolita Ghermanjuk. Chegou em Winnipeg no dia 15 de junho de 1972.


“Depois de tantos anos de exílio e cárcere, longe de meus compatriotas, sinto a alegria de estar aqui, junto com vocês, entre os ucranianos do mundo livre. Que alegria poder pregar livremente em nossa igreja, sem o risco de ser mandado por isso ao campo de concentração ou a uma prisão. Como é bonito poder pregar num templo ucraniano, usando da língua da própria nação. Os cárceres e campos de trabalho debilitaram e destruíram minha saúde, mas esta é a cruz que o próprio Senhor colocou em meus ombros.


“Tenho impressão que, estando no cárcere, o Servo de Deus te- nha sido objeto de experimentos médicos como são os ratos. Isto incluía provavelmente também a administração de diversos psicofármacos, com o objetivo de produzir um tal efeito na psique humana.”


“Eu me lembro também que quando lhe perguntava sobre coisas da ex-URSS, mesmo que superficiais ou de pouco valor, ele procurava sempre verificar com um rápido olhar onde estávamos e me perguntava se podia falar livre e abertamente. Eu lhe dizia que sim, que estávamos num mundo livre onde cada qual tinha o direito de fazer qualquer coisa em vista do bem e dizer tudo o que julgava oportuno, servindo-se da liberdade pessoal e da própria consciência. Ele, porém, rebatia que os agentes da KGB podiam estar presentes, ou melhor, eles estão por toda parte, e só com minha insistência continuava falando com a voz no mais das vezes muito baixa.


Achando-se no leito de morte, esperando a feliz passagem para a eternidade, procurava eliminar, destruindo ou escondendo, tudo o que lhe dizia respeito, dizendo: ‘Eles, os bolchevistas, podem chegar aqui a qualquer momento e não quero que vos façam o mal por minha causa’.”


O chefe da Igreja Greco-Católica Ucraniana clandestina não poderia, contudo, gozar por muito tempo da liberdade, oferecendo aos ucranianos da diáspora o testemunho vivo das perseguições que a Igreja sofria naquele tempo. Seu amoroso coração paterno parou aos sessenta e um anos de idade, de- pois de dez anos de serviço episcopal. Era o dia 30 de junho de 1973.

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Nasceu em Schifelli. Seus pais foram Alexandre Fiorini e Rosa Campoli. O pai faleceu em 1876. Passaram grande misérias. A mãe vai trabalhar no galinheiro da comunidade e Isidoro fazia alguns serviços