O Chamado

   A jovem aspirante que se aproxima da Ordem do Santíssimo Redentor com o desejo de se tornar uma Sponsa Christi deve considerar primeiro qual é a finalidade última de uma monja redentorista, pois assim poderá discernir mais facilmente se seu chamado ao estado de perfeição é realmente sincero ou se é motivado por aspirações meramente humanas, ademais, poderá examinar-se com mais clareza e ver se possui as aptidões e disposições necessárias para abraçar essa vocação, pois conforme diz Jesus no capítulo 14 do Evangelho de São Lucas 

 

[...] qual de vós querendo edificar uma torre, não se assenta primeiro para calcular a despesa e ver se tem com que acabar? Para que, depois de ter assentado o fundamento e não a poder terminar, todos os que virem, não comecem a fazer zombaria dele, dizendo: este homem principiou a edificar, e não pôde terminar.

 

   Para entendermos qual é o fim último de uma monja redentorista necessitaremos recorrer ao prólogo de nossa Santa Regra Primitiva, onde Eterno Pai manifesta sua intenção ao escolher este Instituto:


“Com desejo ardente desejei dar ao mundo o meu Espírito e comunica-lo às minhas criaturas racionais, para viver com elas e nelas, até o fim do mundo. Dei-lhes o meu Unigênito Filho com infinito amor; e por essa razão lhes comuniquei o meu divino Espírito Consolador para deifica-los na Vida, Justiça e Verdade, e para estreita-las todas na minha dileção, neste Verbo Filho de amor; e por isso toda a difusão de minha graça, justiça e verdade, e por Ele a vida eterna. [...] Portanto, para que minhas criaturas se recordem de minha eterna caridade, aprouve-me escolher este Instituto para que seja uma viva memória para todos os homens do mundo, de tudo quanto se aprouve meu Filho Unigênito realizar por sua salvação pelo espaço de trinta e três anos em que ele habitou no mundo como homem viajor”.


Para explicarmos com mais exatidão o que é uma “viva memória” de Cristo precisaremos tratar sobre o fim último de todo o cristão.
 

   Na vida cristã, escreve o padre dominicano Antônio Royo Marin, podem-se assinalar dois fins, ou, melhor dizendo, apenas um com duas modalidades distintas: um fim último ou absoluto e outro próximo ou relativo. O primeiro é a glória de Deus; o
segundo, nossa própria santificação.


Deus, sendo infinitamente perfeito e feliz em si mesmo, não necessita das criaturas para lhe acrescentar glória alguma, pois no próprio mistério de sua vida íntima Ele encontra uma glória intrínseca absolutamente infinita. Contudo, Deus é amor (Jo. 4,16), afirma o evangelista São João, e o amor, por sua natureza, é comunicativo. Deus quis livremente comunicar aos homens suas infinitas perfeições a fim de que eles se tornassem, por meio da graça santificante, participantes de sua eterna felicidade e fossem assim o louvor da sua glória


“Ele nos predestinou para sermos seus filhos adotivos por Jesus Cristo, conforme o beneplácito da sua vontade, para louvor e glória da sua graça, com a qual ele nos agraciou no Bem-amado” (Ef 1; 5-6)


Como afirma o Beato Fr. Maria Eugênio em sua obra “Quero ver a Deus”

“As próprias vicissitudes, queda dos anjos, pecado do homem, foram permitidas por Deus apenas como ocasião e meio para mostrar toda a força do seu braço, toda a medida do amor que ele desejava dar ao mundo. Não afirmou Santo Agostinho que Deus permitiu a queda dos anjos a fim de criar o homem? O pecado do homem é uma “feliz culpa” que nos mereceu o Cristo Redentor”


O sangue que Jesus derramou é o sangue da nova aliança que Deus veio estabelecer com os homens, o laço que uniu tudo o que estava separado. Jesus tornou-se, por sua paixão e morte de cruz, o único redentor e mediador entre Deus e os homens:
 

[...] temos a plena confiança de poder entrar no Santuário, em virtude do sangue de Jesus. Nele temos um caminho novo e vivo, que ele mesmo inaugurou através do véu, isto é, através da sua humanidade. (Hb 10,19-20)


Jesus ressuscitado é este caminho novo e vivo que conduz ao Pai. É necessário, porém, permanecer n’Ele...
 

“Como a ramo não pode por si mesmo dar fruto, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira, vós os ramos. O que permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto, porque, sem mim, nada podeis fazer.” (Jo 15; 3)
 

“Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes, e ser-vos-á concedido.” (Jo 15; 7)

“Se vós permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade, e a verdade vos tornará livres.” (Jo 8; 30-32)


“O que come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim e eu nele.” (Jo 6; 56)


A doutrina de Jesus e a experiência dos santos mostram que, para que essa união possa desenvolver-se e chegar à sua plenitude, é necessário, antes, que o homem morra completamente a si mesmo. Esta morte a si mesmo comporta várias etapas que perpassam toda a vida espiritual, mas que são mais acentuadas no início da vida espiritual, ou, na linguagem de Santa Teresa, nas três primeiras Moradas do Castelo Interior. Os principais obstáculos que impedem a alma de avançar na união com Deus são descritos pelo próprio Jesus na parábola do semeador:


“Saiu o semeador a semear a sua semente; ao semeá-la, uma parte caiu ao longo do caminho; foi calcada, e as aves do céu comeram-na. Outra parte caiu sobre pedregulho; quando nasceu, secou, porque não tinha umidade. A outra parte caiu entre os espinhos; logo os espinhos, que nasceram com ela, a sufocaram. Outra parte caiu em boa terra; depois de nascer, deu fruto, cento por um.» Dito isto, exclamou: «Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!» Os seus discípulos perguntaram-lhe o que significava esta parábola. Ele respondeu-lhes: «A vós é concedido conhecer o mistério do reino de Deus, mas aos outros ele é anunciado por parábolas; para que vendo não vejam, e ouvindo não entendam (Is. 6,9-10). Eis o sentido da parábola: A semente é a Palavra de Deus. Os que estão ao longo do caminho, são aqueles que a ouvem, mas depois vem o demônio e tira a palavra do seu coração para que não se salvem crendo. Aqueles (em que se semeia) sobre pedregulho, são os que recebem com gosto a palavra, quando a ouvem, mas não têm raízes; até certo ponto crêem, mas, no tempo da tentação, voltam atrás. A que caiu entre espinhos, representa aqueles que ouviram (a palavra), porém, indo por diante, ficam sufocados pelos cuidados, pelas riquezas, e pelos deleites desta vida, e não dão fruto. Enfim, a que caiu em boa terra, representa aqueles que, ouvindo a palavra com coração reto e bom, a retêm e dão fruto por sua perseverança.” (Luc 8; 5-15)


A falta de meditação, de perseverança na oração e de desapego, constituem as três principais travas que impedem as almas de alcançarem aquele terreno fértil, onde a virtudes crescem em abundância e onde um rio de água viva jorra para a vida eterna. É necessário, nesses princípios da vida espiritual, um trabalho enérgico por parte da alma, onde ela busque extirpar os vícios e adquirir virtudes; lembrando, porém, que todo o trabalho ascético deve orientar-se, não no sentido de fazer isso ou aquilo, em praticar essa ou aquela virtude, mas em conformar a sua vontade com a vontade de Deus:


“Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas só o que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.” (Mt 7; 21)


Ademais, todo esse trabalho de ascese seria inútil se não fosse auxiliado pela graça de Deus


“Se o Senhor não edificar a casa, é em vão que trabalham os que a edificam. Se o Senhor não guardar a cidade, inutilmente vigia a sentinela.” (Sl 127)


É necessário, portanto, pedir incessantemente a graça divina, afinal


“nas coisas da fé, o conselho do homem, sem o auxílio divino, é enfermo e ineficiente. É necessário, portanto, levantar-se à oração, e pedir o seu auxílio, sem o qual nenhum bem pode ser alcançado. Isto é, é necessário pedir a sua graça, a qual, para que tivesses chegado até aqui para pedi-la, era ela que já te iluminava, e daqui para a frente será quem haverá de dirigir os teus passos para o caminho da paz, e de cuja única boa vontade depende que sejas conduzido ao efeito da boa obra. Não serás obrigado por ela, serás ajudado. Se apenas tu operares, nada realizarás; se apenas Deus operar, nada merecerás. Aquele que corre por esta via busca a vida” (Disdacalicon - Hugo de São Vitor).


Considerando tudo o que dissemos até agora podemos dizer que os diversos modos de como organizar e dispor a vida espiritual para alcançar essa perfeita transformação em Cristo são no que diferem uma espiritualidade da outra, mas que o fim de todas, entretanto, permanece o mesmo. E é neste sentido que podemos agora retomar a explicação sobre o fim último da monja redentorista e analisar como essa união transformante em Cristo, foi compreendida e vivida por nossa fundadora Beata Maria Celeste.

Monjas Redentoristas

I

II

No início desse texto reproduzimos um trecho retirado do prólogo de nossa Santa Regra Primitiva onde o Eterno Pai disse ter escolhido a Ordem do Santíssimo Redentor para que seus membros se tornassem uma Viva Memória de Cristo. Não apenas Memória, mas Viva Memória.

A memória que não fosse viva estaria sujeita a se tornar uma mera imitação exterior das virtudes de Cristo. A encarnação do Verbo se tornaria, deste modo, uma missão do bom exemplo, onde Jesus é apenas um modelo e protótipo perfeito para regular nossas ações. A
vida espiritual se transformaria, por consequência, em um rigoroso esforço ascético, que oprime a alma e rouba-lhe as forças, justamente por enfatizar que a maior colaboração no trabalho de santificação parte da alma e não do auxílio divino. Todavia, não é isso que nos ensina Madre Maria Celeste. Para ela a Imitatio Christi é, antes de tudo, uma participação da vida de Cristo: 

Vós, amor meu, me fizestes entender como toda a importância da vida espiritual consiste
em estar na vossa divina presença, de pensar somente em vós, de aspirar somente a vós,
de amar somente a vós, de nada procurar nem desejar que a vós, único tesouro da alma; e
que assim fazendo o homem se purifica de seus maus hábitos e das sugestões do demônio.
E pela vossa divina luz a alma vê e conhece as suas trevas e das vossas divinas
perfeições recebe a vestimenta das santas virtudes
(Autobiografia) 

Antes de ser modelo para regular nossas ações o Verbo Encarnado é

[...] a escada mística pela qual o homem é conduzido da terra ao Céu empíreo, onde Deus está assentado. (Autobiografia)

Essa é, na verdade, a doutrina de absolutamente todos os santos. No próprio Evangelho encontramos afirmações claras como essa:

 

“Todas as coisas me foram entregues por meu Pai;

 

diz Jesus,

 

e ninguém sabe quem é o Filho, senão 0 Pai, nem quem é o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho quiser revelar.”

(Luc 10;21)

 

Somente pela união com Cristo é possível chegar à contemplação da Santíssima Trindade, fim último do homem. É para esse fim que convergem todas as grandes escolas de espiritualidade.

 

À luz desta explicação podemos afirmar que a expressão “Viva Memória de Cristo” tem, na espiritualidade redentorista, um significado muito específico e sublime. Ao definirmos o fim último da monja redentorista como sendo uma imitação de Cristo através da Viva Memória queremos destacar que isso implica, para cada monja da Ordem, uma transformação que deve ocorrer principalmente no plano sobrenatural, isto é, no desenvolvimento da vida da graça, ou, em outras palavras, no desenvolvimento da vida de oração.

Entender isso é tão essencial que o próprio Papa Pio XII fez questão de recordar às religiosas de clausura, em uma Radiomensagem de 19 de julho de 1958, que a vida contemplativa canônica é

 

“uma profissão exterior de disciplina religiosa organizada em vista da contemplação interior” 

A clausura, os trabalhos, os exercícios de piedade, de oração e de mortificação não são senão meios à serviço de uma realidade essencial: a contemplação.

 

O Santo Padre continua dizendo que

“O que se exige em primeiro lugar é que pela oração, meditação e contemplação a monja se una a Deus. Que todos seus pensamentos e suas ações sejam penetradas de sua presença e ordenados a seu serviço. Se isso viesse a falecer, faltaria a alma da vida contemplativa, e nenhuma prescrição canônica poderia supri-la.”

Uma correta compreensão disso poderia resultar, para cada aspirante à vocação redentorista, em uma radical mudança de perspectiva de como enxergar e encarar a vocação. O edifício espiritual que se pretende construir ganharia bases sólidas, capazes de sustentar todo o edifício que se ergue rumo ao Céu. Todas as energias e boas disposições dessas almas que iniciam a vida espiritual seriam prudentemente distribuídas durante o longo trajeto.

Foi sobre essa base sólida que Madre Maria Celeste fundamentou sua vida espiritual, e, consequentemente, a espiritualidade da Ordem do Santíssimo Redentor. 

Deve-se notar, porém, que toda a sua doutrina espiritual é desenvolvida, não a partir de um estudo teológico previamente planejado, mas a partir do relato de sua experiência pessoal na vida interior. Portanto, faz-se necessário reproduzir alguns acontecimentos de sua vida que explicam mais claramente o por que de Madre Maria Celeste ter insistido em seus escritos que o verdadeiro fim de todo cristão -e portanto da monja redentorista- é a contemplação da Santíssima Trindade e que isso se dá somente através da união com o Verbo Encarnado por meio das três virtudes teologais.

No início de sua Autobiografia ela relata que 

Sendo criancinha de cinco ou seis anos, começou o Senhor a dar-lhe conhecimento de sua Divindade passivamente, tão suave, que ela concebeu o desejo de amá-Lo e servi-Lo. Tendo Ele dotado-a de bom intelecto e de capacidade racional muito antes do tempo, ela mandava seus suspiros amorosos a Deus, muito frequentes, tinha desejos e ardor na vontade, e não sabia como satisfazê-los. Estava ela com ansiedade por ouvir as coisas que lhe eram ensinadas por seus genitores a respeito da fé cristã, sendo muito pios e devotos seus pais, quando era educada. Assim, ainda ouvia com gosto e prazer as vidas daqueles Santos, que haviam amado bastante a Deus, e os tomava por seus advogados. E também o Senhor lhe falava ao coração, dizendo-lhe várias coisas. De tempos em tempos a chamava e insistia a amá-Lo com certas e breves palavras interiores, sem que ela soubesse o que fosse. E assim caminhando chegou à idade de nove anos, muito viva e sensível. 

Passado algum tempo, porém, ela

[...] Começou a conviver com algumas empregadas. Sendo elas inclinadas à vida do mundo, começaram a fazê-la ciente de muitas misérias da situação do mundo, e ela se esfriando no serviço de Deus, começou a gostar daquelas notícias do mundo. Nisso se comprazia e fazia perguntas àquelas pessoas. Começou a aprender canções profanas e a desejar as coisas do mundo. Mas em meio àquele relaxamento de vida, sentia ela certos fortes estímulos de consciência que a dilaceravam, e o Senhor lhe fazia certas repreensões interiores e lhe dava certas luzes que a queimavam. Ela buscava o perdão do Senhor, e depois de novo voltava àquelas conversas. Mas não percebia ser pecado o que fazia.

A pequena criança, pressionada por aquele convite constante da graça,

[...] pensou em procurar um religioso dominicano, e foi, não se confessar, mas ia para aprender dele o exercício da oração mental, e o modo como poderia amar a Deus de todo o coração porque, embora em todo aquele tempo tivesse feito oração, que Deus lhe dava com aquelas luzes espirituais, ela acreditava que a oração mental fosse outras coisas que ela não sabia.

Foi então que, em um certo dia, ela foi à igreja de São Tomás de Aquino, em Nápoles, para fazer uma confissão geral com o padre dominicano. Ela manifestou-lhe

[...] tudo o que ela havia feito, tudo o que lhe aconteceu, e perguntando ao confessor se aquelas coisas que ela havia cometido eram pecado ou não, o padre lhe respondeu que não só eram pecado aquelas coisas que ela havia feito, mas se ela seguisse aquele caminho, estaria perdida, e expondo-lhe com minuciosa clareza o perigoso estado para o qual se encaminhava, exortou-a a se abster de tais conversações para o futuro.”

Impressionada e compungida por ouvir do padre que aquilo que ela fazia era sumamente perigoso para a sua salvação eterna resolveu abandonar imediatamente a vida mundana e procurou “fazer oração mental”, conforme o padre a havia ensinado. Voltando para casa ela

[...] logo fez diligência para obter os livros espirituais que sua tia, que era pessoa devota, usava, para encontrar aqueles que o padre dominicano lhe havia dito de que ela se servisse para meditar. Em seguida, encontrando ambos, isto é, aquelas meditações de S. Pedro de Alcântara, como o “Alimento da Alma”, colocou-os entre os seus guardados para servir-se deles segundo o que o padre dominicano lhe havia ensinado, pensando que aquele modo de oração que ele lhe deu fosse o mais excelente e proveitoso. Por isso, estabeleceu fazer aquele exercício por meia hora, assim como o padre lhe havia ordenado, que ela fizesse meia hora ao dia, ou pela tarde ou pela manhã. Lia primeiro a meditação da Paixão de Nosso Senhor, e depois começou a fazer o ato de fé na presença de Deus.

Aconteceu, porém, que ao fazer o ato de fé na presença de Deus

Logo lhe vem um extraordinário recolhimento, arrebatada interiormente por um grande amor. Não pôde prestar atenção à meditação que havia lido no livro, e passada a meia hora, dela não se lembrava nada. Depois, acreditando não ter feito nada de bom, tornava a ler a meditação. E também assim lhe sucedia. Então ela se recordou o que o padre lhe havia dito, que se ela não se desse bem com uma meditação, lesse uma outra. E assim andava lendo, ora uma, ora outra. Mas sempre assim lhe acontecia. Consumia duas ou três horas neste exercício, nem ela entendia a causa desta coisa. É verdade que durante o dia se encontrava sempre recolhida. Ia para um quarto solitário que estava num terraço da casa, porque lhe incomodavam o falar e a convivência com as criaturas. Mas ela não entendia o que fosse isso.

Esse acontecimento aparentemente inusitado constituiu para Maria Celeste a base de toda a sua doutrina espiritual. Se a vida eterna consiste em um conhecimento, conforme está escrito:

“A vida eterna é esta: Que te conheçam a ti como o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.”

(Jo 17; 3)

 

Ela compreendeu que 

“A vida eterna se inicia em nós pela fé.” (São Tomás de Aquino)

Se no céu a fé dará lugar à visão beatífica podemos deduzir, se invertermos os termos, que aqui na terra a fé substitui provisoriamente o papel que a visão beatífica desempenha no céu.

Um testemunho ainda mais eloquente sobre a importância da virtude teologal da fé nós encontramos no capítulo 5 do Evangelho de São João. Quando os Judeus procuravam matar a Jesus por ele, além de curar um doente em dia de sábado, dizer que era o filho de Deus Jesus responde dizendo que não só suas obras dão testemunho de que ele é o filho de Deus, mas que o próprio Pai que o enviou também dá testemunho d’Ele. Falando sobre o Pai Jesus diz aos Judeus:

“Vós nunca ouvistes a sua voz, nem vistes a sua face, e não tendes permanente em vós a

sua palavra, porque não credes no que ele enviou.” (Jo 5; 37-38)

Deus não pode ser ouvido pelos ouvidos do corpo, senão por espiritual inteligência mediante a graça do Espírito Santo. Nem se pode ver a face de Deus com os olhos carnais, pois Deus é espírito (Jo 4; 23) e aqueles que querem adora-lO devem fazê-lo em espírito e em verdade.

Ao dizer que os judeus nunca tinham ouvido e nem visto o Pai porque não criam n’Ele Jesus estava querendo chamar a atenção que o único modo de ver e ouvir a Deus nesta vida é mediante prática da fé. Ver e ouvir o Pai, e ter permanentemente em nós a sua Palavra, designa, em forma resumida, os cumes da vida espiritual. Nada disso, porém, é acessível sem a fé.

Semelhantemente a isso lemos no capítulo 8 deste mesmo Evangelho Jesus responder aos Judeus quando estes perguntaram onde estava o Pai:

“Não conheceis nem a Mim nem a meu Pai;

Diz Jesus, 

se Me conhecêsseis a Mim certamente conheceríeis também meu Pai.”

 

Os judeus estavam diante de Jesus e conversavam com ele, o conheciam, portanto. Mas então por que Jesus disse que eles não o conheciam? O próprio Jesus é quem explica:

“Vós julgais segundo a carne”

O conhecimento que Jesus se referia não era um conhecimento natural, que se serve dos sentidos do corpo. Mas um conhecimento sobrenatural, que se inicia pela virtude da fé e culmina, nesta vida, na visão intelectual da Santíssima Trindade naquilo que Santa Teresa chamou de “Sétima Morada”.

O problema que fazia com que os judeus não reconhecessem que Jesus era O Filho de Deus é o mesmo problema que faz com que milhares de pessoas não avancem na vida espiritual. Tanto uns como os outros

[...] estão cegos pelas coisas sensíveis, visíveis e cognoscíveis. Por isso a fé, a esperança e a

caridade estão mortas neles e não vêem as coisas eternas.” (Diálogos da Alma)

 

Estar “cegos pelas coisas sensíveis, visíveis e cognoscíveis” significa viver das coisas que se veem e não buscar as coisas que são do Alto (Col 3; 1). É ignorar a natureza espiritual que há em nós para viver do homem carnal que busca uma coroa corruptível.

Diante dessas afirmações convencemo-nos facilmente da importância dessa virtude teologal para alcançarmos a união com Deus, todavia ainda não sabemos claramente o que ela seja. É importante que a entendamos.

No livro Diálogos da Alma Maria Celeste dá uma belíssima explicação sobre a virtude fé. Comentando a passagem do Evangelho de São João onde está escrito:

“Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e nós viremos a ele,

e faremos nele a nossa morada.”

Maria Celeste escreve colocando as palavras na boca do Esposo: 

“Filhinha, a fé é a Verdade Divina e eu sou a luz na qual os teus olhos intelectuais vêem a verdade da fé. Na minha luz estas coisas são manifestadas, porque o meu Pai celestial me pôs no mundo para que eu fosse a luz dos homens para que lhes fossem manifestadas as eternas verdades da fé. Por isso eu disse ser a luz do mundo e que ninguém podia ir ao Pai a não ser por mim. Assim a fé não é outra coisa que a manifestação da verdade na qual tu vês na minha luz. E fica sabendo que esta luz não é obscura nem tenebrosa àqueles que têm olhos para ver na minha luz.”

Ora, se a fé é a manifestação da verdade segue-se que ela é, primeiramente, um modo de conhecimento. As Escrituras atestam:

"Pela fé conhecemos que o mundo foi formado pela palavra de Deus,

de sorte que o visível foi feito pelo invisível." (Heb. 11, 3)

Notem que na definição de Maria Celeste está escrito que pela fé são manifestadas “as eternas verdades”. Não se trata, pois, de qualquer conhecimento, mas do conhecimento das verdades sobrenaturais, isto é, do mistério de Deus e do Verbo Encarnado, e tudo que se ordena a isso. Por isso diz “manifestadas”, pois se tratam de realidades ocultas à razão natural.

Notem, ademais, que a definição de Maria Celeste é dada em forma de diálogo, onde o Verbo é quem fala. Ele diz: “a fé não é outra coisa que a manifestação da verdade na qual tu vês na minha luz”. Ver na luz do Verbo significa que este conhecimento, apesar de necessitar do assentimento da inteligência, é efeito unicamente da graça divina que ilumina o intelecto e convida a vontade. Pela paixão e morte de cruz Jesus não só adquiriu os méritos necessários para a salvação dos homens mas passou a ser causa eficiente desta mesma graça.

É exatamente a mesma definição que dá o Apóstolo quando diz que a fé é

"A substância das coisas que se esperam,

a demonstração das coisas que não se vêem". (Heb. 11, 1)

Quando Maria Celeste fez o ato de fé na presença de Deus e logo ficou em um “extraordinário recolhimento, arrebatada interiormente por um grande amor”, ela experimentou justamente “a substância das coisas que se esperam”. Era verdadeiramente um contato com Deus. Esta é a vida eterna que se inicia pela fé. Quando ela escreve pela boca do Esposo que a fé “não é obscura nem tenebrosa àqueles que têm olhos para ver na minha luz” ela estava querendo dizer a mesma coisa que o Apóstolo quando escreveu que a fé é “a demonstração das coisas que não se vêem”, ou seja, é já poder ver as realidades eternas com os olhos da alma com a mesma firmeza como se já tivessem sido demonstradas.

Mas a descoberta de Maria Celeste não parou por aí. Logo em seguida ela narra que

Um dia lia a meditação da lançada que N. S. Jesus Cristo recebeu na Cruz, e ela ficou absorta de amor a este Divino Senhor pelo qual, convidada a permanecer no seu Divino Coração ferido, não pegou mais livros para meditar.

Esse relato concorda exatamente com o que diz Jesus no capítulo 13 do Evangelho de São Mateus:

“O reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo o qual, quando um homem o acha, esconde-o, e, pelo gosto que sente de o achar, vai, e vende tudo o que tem, e compra aquele campo. O reino dos céus é também semelhante a um mercador que busca pérolas preciosas, e, tendo encontrado uma de grande preço, vai, vende tudo o que tem, e a compra.”

“Vender tudo o que tem” significa que, na oração, a alma deve abandonar o trabalho discursivo do intelecto para permanecer, pela fé e pelo amor, com Cristo, que é a pérola preciosa e o tesouro escondido. Foi exatamente isso que fez Maria Celeste. Os relatos são evidentes:

Uma manhã de domingo, foi comungar, e tendo recebido a sagrada Partícula, se lhe mostrou Nosso Senhor Jesus Cristo com seu lado aberto, e recebendo-a em seu Divino Coração, lhe disse: “Entra nesta Chaga, e eu te lavarei, e te purificarei de todos os teus pecados”, e assim dizendo, senti a alma com inexplicável suavidade, tornada limpa e pura. E acrescentou o Senhor que Ele lhe havia perdoado todos os seus pecados. Depois disso começou-lhe um grande pranto tão docemente que lhe durou muitas horas com um recolhimento muito substancial. Disse-lhe o Senhor: “Eu quero ser teu Guia, eu quero conduzir-te, não procura outro, mas a Mim somente. Eu serei o teu Mestre; não ama outra criatura senão a Mim.” Foi tal a consolação interna daquela alma que, como fora de si, estava atônita, sendo a primeira vez que havia recebido aquelas visões internas.

Não era somente a fé que Madre Maria Celeste havia descoberto, mas o próprio Verbo Encarnado. Assim como São Pedro reconheceu que Jesus não era apenas mais um grande profeta, mas “O Filho de Deus” (Mt 16; 16) Maria Celeste percebeu que ao fazer o ato de fé ela não estava simplesmente recebendo luzes para compreender as verdades contidas nas Sagradas Escrituras, mas estava na presença real da Pessoa do Verbo. Por isso ela disse:

“[...] convidada a permanecer no seu Divino Coração ferido, não pegou mais livros para meditar.”

Com efeito

“O Coração do Verbo é um livro infinito que encerra a sabedoria de todos os doutores.”

(Diálogos da Alma)

Todas essas afirmações projetam luzes em nosso intelecto e fazem-nos intuir, ainda que levemente, o quão sublime foi a vida espiritual de nossa fundadora. Não obstante, é necessário que expliquemo-las com mais detalhes, pois estamos diante do tema central de toda a sua doutrina espiritual e não entenderemos perfeitamente a sua Regra sem antes compreendermos claramente isso.

No livro “Teologia da Perfeição Cristã”, do padre dominicano Antônio Royo Marin, existe um capítulo intitulado “Graus da Oração” onde o autor explica todo o desenvolvimento da vida interior servindo-se dos escritos de Santa Teresa d’Avila e da teologia de São Tomás de Aquino. As etapas são divididas em 9 graus de oração. Graus estes que não são senão modos mais e menos perfeitos de exercitar a fé, a esperança e a caridade. Os graus são os seguintes:

- Oração Vocal

- Oração de Meditação

- Oração Afetiva

- Oração de Simplicidade

- Oração de Recolhimento Infuso

- Oração de Quietude

- União Simples

- União Extática

- União Transformante

Segundo a explicação do próprio autor a Oração Vocal é aquela que

“se manifesta com as palavras de nosso linguajar articulado, e constitui a forma quase

única da oração pública ou litúrgica.”

Ademais, é aquela que

fundada na união do corpo e do espírito na natureza humana, associa o corpo à oração

interior do coração” (CIC 2722)

Não se trata, pois, de simples orações pronunciadas pelos lábios, mas uma expressão “corporal” daquelas realidades que se passam no espírito.

A Oração de Meditação é aquela pela qual a alma, iluminada pelos Dons do Espírito Santo, busca o sentido mais profundo das Sagradas Escrituras, aquilo que vai além do sentido histórico e que não está evidente aos olhos da maioria dos leitores. Esta busca também pode se dar nas obras dos Santos Padres e de outros autores católicos.

Deve-se notar, porém, que depois da Oração Afetiva existe um ponto cego que poucas almas conseguem enxergar, (poucas relativamente ao número total de católicos e não a um determinado grupo). Essa é a passagem da “porta estreita” que se refere a Sagrada Escritura. É justamente o que o jovem rico do Evangelho de São Lucas teria descoberto se tivesse vendido tudo e seguido a Jesus.

A passagem da “porta estreita” acontece, na verdade, depois que a alma chega à plena Oração de Simplicidade, onde ela permanece incessantemente com a lâmpada da fé e da caridade acesa, aguardando o Esposo chegar (Mt 25; 1-13). Acontece que, este grau de oração, não é outra coisa senão o modo mais desenvolvido e permanente da Oração Afetiva. Essencialmente é a mesma realidade.

Comumente se diz que a Oração Afetiva consiste em “elevar frequentes afetos a Deus”, entretanto, essa definição não explica totalmente a essência desse grau de oração. Não se pode amar alguém que não se conhece ou que nunca se tem presente; afinal, o amor conduz à união, e o amor só cresce verdadeiramente na presença da pessoa amada. O que distingue este grau de oração com a Oração de Meditação é justamente essa tomada de consciência de que toda vez que fazemos um ato de fé tocamos o Verbo Encarnado (Cf. Summa Theologiæ na IIIa Pars, Q. 48, a. 6, ad 2). É esse o ponto central da Oração Afetiva. O amor, ou para melhor dizer, o afeto que a alma eleva a Deus é fruto imediato da vivência da fé. Não são fórmulas mecanicamente pronunciadas.

Foi exatamente essa tomada de consciência da presença de Deus em nós que Maria Celeste teve naquele ato de fé. Quando criança ela já

[...] mandava seus suspiros amorosos a Deus, muito frequentes, tinha desejos e ardor na vontade, e não sabia como satisfazê-los. Estava ela com ansiedade por ouvir as coisas que lhe eram ensinadas por seus genitores a respeito da fé cristã, sendo muito pios e devotos seus pais, quando era educada. Assim, ainda ouvia com gosto e prazer as vidas daqueles Santos, que haviam amado bastante a Deus, e os tomava por seus advogados. E também o Senhor lhe falava ao coração, dizendo-lhe várias coisas. De tempos em tempos a chamava e insistia a amá-Lo com certas e breves palavras interiores”

Mas essas palavras interiores ela diz que experimentava

“sem que ela soubesse o que fosse.”

E ao referir-se à oração mental ela pensava que

“fosse o mais excelente e proveitoso”

É evidente que, ao dizer essas coisas, ela quer chamar-nos a atenção que, o que aconteceu após a experiência do ato de fé na presença de Deus, foi superior aos graus precedentes de oração. Não era, obviamente, a primeira vez que Maria Celeste fazia um ato de fé, acontece que, naquela ocasião, ela percebeu claramente que por trás do ato de fé existia uma Pessoa Divina que estava tentando comunicar-se incessantemente com ela. Provavelmente essa experiência de Maria Celeste foi mais intensa do que a experiência da maioria de nós. Certamente se tratava do início da Oração de Recolhimento Infuso, pois ela já tinha uma vida muito pura e já rezava desde a mais tenra idade, contudo, vale lembrar, a Oração de Recolhimento Infuso é concedido por Deus às almas que permanecem incessantemente unidas a Ele pela fé e pela caridade. União esta que se inicia verdadeiramente na Oração Afetiva, a partir da descoberta da presença de Deus em nós. É justamente essa tomada de consciência de que “o Verbo era a luz que ilumina todo o homem que vem a este mundo” e que Ele dá o poder de se tornar filhos de Deus somente àqueles que “creem no seu nome e que não nasceram da carne, nem da vontade do homem, mas nasceram de Deus”, que constitui o fundamento firmíssimo de uma autêntica vida espiritual:

[...] não se iluda qualquer alma que deseja chegar à perfeição, jamais poderá consegui-la por outra via que não seja por esta assídua aplicação a estar atenta em olhar seu Deus presente com amor. E quanto maior for a diligência, mais depressa alcançará. Se mais lentamente, mais tardará em conseguir sua perfeição. (Diálogos da Alma)

Agora fica mais claro o porque de Maria Celeste ter dito no livro Diálogos da Alma que

“O conhecimento dos divinos mistérios

em sua Verdade é a estrada da oração”

E que

“Em uma só palavra do Evangelho estão todas as perfeições divinas porque ali está o

Verbo substancial das quais saíram.”

Tendo explicado a doutrina de Madre Maria Celeste sobre a virtude teologal da fé e da descoberta do Verbo Encarnado em nosso interior podemos agora introduzir a Regra propriamente dita e prosseguir, deste modo, com a nossa explicação sobre o fim último da monja redentorista.

…a ser continuado.